Posts Tagged ‘Golpe’

OU SEJA…

17 de março de 2016

GetAttachment

Foi liberado o teor de depoimento do “ou seja”, isto é, Lula. Aquele depoimento para o qual ele foi coercitivamente conduzido.

Impressiona o tom de deboche e ironia utilizados pelo depoente, especialmente a partir do momento que este percebeu que não estava conseguindo seduzir o delegado que o inquiria.

Lula, como sempre, abusou do cacoete de usar a expressão “ou seja”, que costuma empregar quando está enrolando. É lamentável que um ex-presidente possa expressar-se de maneira tão grosseira, baixa e mal educada como se constata na transcrição do documento. Recheada de palavrões, a peça é um deboche para quem tenha um mínimo de educação. Vou me abster de comentá-lo mais, eis que poderá ser lido por qualquer um que tenha estômago para tanto.

Os manifestos do último domingo foram um sucesso. Refiro-me àqueles que tiveram a adesão maciça e espontânea da população e não aos promovidos por militantes partidários. É importante fazer a distinção, porque houve uma vergonhosa tentativa de parte de parcela da mídia comprometida de querer comparar um Boeing 747 Jumbo a um vetusto Fiat 147. Sim, esta seria a proporção que definiria a diferença entre os atos promovidos pelos defensores do governo petista e as cerca de quatro milhões de pessoas que foram às ruas manifestar-se pelo impeachment de Dilma Rousseff, que pediram a prisão de Lula, que bradaram contra o PT, contra o mar de corrupção e o descalabro governamental. O povo deu um show. 

Pasmo e boquiaberto, o governo viu a quantidade impressionante de pessoas que é capaz de mobilizar. Na condição de adversários, é claro.  

Embora dona Dilma tenha “elogiado” a civilidade dos eventos, logo a turma do Palácio do Planalto fará o jogo na surdina, na penumbra dos salões acarpetados do poder que julgam supremo. Seja cooptando apoios ou nos conhecidos embargos auriculares dirigidos a canetas poderosas que possam retardar o inevitável desfecho. O governo acabou. Cada dia mais no poder, será um dia mais de atraso para o país retomar o rumo minimamente razoável para sair do atoleiro. O atual governo nada mais fará do que usar todos os meios disponíveis a seu alcance na tentativa de salvar-se da queda e – para muitos de seus companheiros – dos tribunais criminais.

Para aumentar o pavor de Lula e do governo, a juíza de São Paulo que  analisaria a denúncia e o pedido de prisão preventiva do ex-presidente, encaminhou o processo para o juiz Sérgio Moro, em Curitiba.

Além disso, Sérgio Moro cobrou um prazo de cinco dias para que Lula explique porque usa um cofre do Banco do Brasil para guardar jóias e obras de arte recebidas durante o exercício da Presidência. Está sendo feita a verificação se algum dos itens é anterior a seu período, além do levantamento de bens excluídos – por critério legal – do acervo privado dos presidentes “documentos bibliográficos e museológicos recebidos em cerimônias de troca de presentes, audiências com chefes de Estado e de Governo em visitas oficiais ou viagens de Estado ao exterior.”

No momento em que este texto está sendo escrito, há grande expectativa de que Dilma cometa o absurdo de nomear Lula como ministro encarregado da Secretaria de Governo, hoje ocupada por Ricardo Berzoini. A manobra garantiria  o foro privilegiado a Lula e possibilitaria que ele consiga escapar por algum tempo de Sergio Moro, passando à alçada do STF.

Não custa lembrar que Sérgio Moro foi o grande homenageado dos protestos realizados no domingo. Se a nomeação Lula ministro acontecer, a indignação e a ira populares serão imprevisíveis. A oposição imediatamente deverá entrar com ações populares e a solução virará  um enorme problema.  

Lembramos que o primeiro artigo do corrente ano publicado neste espaço teve como título “Emoções Garantidas”. 

Ou seja, elas estão vindo. Não chegaram ainda, embora pareça que sim.

(publicado no Jornal Correio de Cachoeirinha, edição de 16.03.2016)

Enio Meneghetti   

https://login.skype.com/login/silent?response_type=postmessage&client_id=580081&redirect_uri=https%3A%2F%2Fblu176.mail.live.com%2Fdefault.aspx&state=silentloginsdk_1458224773142&_accept=1.0&_nc=1458224773142&partner=999

EMOÇÕES GARANTIDAS

6 de janeiro de 2016

GetAttachment

Com sua mobilização em 2015, a sociedade conseguiu acuar corruptos e corruptores.  As ruas foram tomadas em diversas oportunidades por milhões de manifestantes exigindo o fim do deboche em forma de corrupção.

Corruptos e seus aliados já não conseguem circular livremente pelas ruas ou frequentar lugares públicos, aeroportos, restaurantes ou cinemas, sem sentirem na pele a rejeição explícita da população. Vídeos postados no youtube , essa arma pacífica mas implacável, deixam claro o prejuízo em suas imagens.

 Amigos próximos de um ex-presidente foram e estão sendo presos e/ou investigados por atividades para lá de suspeitas.

Até uma classe que parecia inatingível, está deixando de ser. Refiro-me aos fidalgos.

 O partido da presidente da República teve decretadas as prisões de seu tesoureiro, do senador líder, de um ex-deputado federal. O ex todo poderoso Chefe da Casa Civil, José Dirceu, foi preso novamente.

 Presidentes das maiores empreiteiras do país foram parar atrás das grades. Acompanhados de diretores da maior estatal brasileira, a Petrobrás, a outrora joia da coroa.

 A Lava Jato condenou empreiteiros, lobistas, ex-deputados, doleiros e burocratas à cadeia, naquele que talvez seja o maior escândalo de corrupção já apurado no país. Quem sabe do mundo.

O TCU apontou graves irregularidades nas contas do governo federal, as chamadas pedaladas fiscais, resultando na abertura de um processo de impeachment contra a presidente.

A Zelotes está aí. O BNDES na fila.

Um ex-Presidente da República vem sendo chamado com frequência para prestar depoimentos na Polícia Federal.

A mídia chapa branca não tem como deixar de noticiar as mazelas governamentais, seja lá qual for o tamanho da verba publicitária. A população usa as mídias sociais e aponta as falsidades e tentativas de escamotear fatos.

Continuamos com a carga tributaria asfixiante que penaliza o desenvolvimento. Com a falta de segurança que campeia nas ruas das nossas cidades, enquanto nossas autoridades públicas perdem tempo (e recursos) perseguindo e atrapalhando iniciativas que funcionam e são do gosto da população, como UBER e Whatsapp.

Continuaremos tendo problemas em  2016. Mas a sociedade está mobilizada e cobrará muito mais. Teremos eleições municipais, as primeiras eleições após a revelação dos grandes escândalos que conseguiram esconder até a data do pleito anterior, em 2014. A lógica, a revolta e a indignação dos eleitores sugerem uma grande derrocada daqueles que ocupam o noticiário por malversação do dinheiro público.

 Ainda é pouco? É. Mas ninguém pode afirmar que “virou pizza”, ou que nada aconteceu. Está acontecendo agora. E é impossível refrear o movimento gigantesco que está em andamento sejam quais forem as desesperadas manobras legais ou jurídicas para tanto venham de onde vierem ou estejam onde estiverem os manipuladores da legislação.

O destino daqueles criminosos é inexorável.

Será um ano de fortes emoções.

Enio Meneghetti

artigo publicado no Correio de Cachoeirinha 06.01.2016

http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/direto-ao-ponto/o-video-desmonta-a-vigarice-protagonizada-por-barroso-para-barrar-o-impeachment/

http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2016/01/corte-no-orcamento-da-pf-pode-afetar-lava-jato-dizem-delegados.html

http://www.infomoney.com.br/mercados/politica/noticia/4502092/moro-repassa-recursos-para-pagar-contas-luz-atrasadas-curitiba-diz

http://g1.globo.com/politica/noticia/2015/11/em-relatorio-pf-diz-que-consultoria-do-filho-de-lula-reproduziu-wikipedia.html

http://oglobo.globo.com/brasil/policia-federal-investigou-filho-de-lula-por-enriquecimento-ilicito-12562690

https://login.skype.com/login/silent?response_type=postmessage&client_id=580081&redirect_uri=https%3A%2F%2Fblu176.mail.live.com%2F&state=silentloginsdk_1452116563666&_accept=1.0&_nc=1452116563666&partner=999

“UM PARTIDO PARA TEMPOS DE GUERRA”

22 de abril de 2015

Um partido para tempos de guerra

Quem acha que estamos longe de um processo de  “venezualização”, não pode deixar de conhecer o documento intitulado  “Caderno de Teses para o Quinto Congresso Nacional do PT”.

O Congresso está marcado para 11 a 13 de junho, em Salvador.

 

A primeira “tese” da publicação dá o tom:  Um Partido para Tempos de Guerra e vai ao ponto: “O Partido que temos não está à altura dos tempos em que vivemos. Das direções até as bases, é preciso realizar transformações profundas. Precisamos de um partido para tempos de guerra”.

Alguns dos objetivos: “Ocupar as ruas, construir uma Frente Democrática e Popular, mudar a estratégia do Partido e a linha do governo. O PT está diante da maior crise de sua história. Ou mudamos a política do Partido e a política do governo Dilma  ou corremos o risco de sofrer uma derrota profunda, que afetará não apenas o PT, mas o conjunto da esquerda política e social, brasileira e latinoamericana”.

O documento propõe a constituição de  “uma frente popular em defesa da democracia e das reformas “ cujo programa deve conter “a revogação das medidas de ajuste recessivo; O combate à corrupção” (?); a reforma tributária com destaque para o imposto sobre grandes fortunas; a defesa da Petrobrás (?) .

 

 Seguem nos devaneios: “A Frente Democrática e Popular é essencial para derrotar o golpismo e libertar o governo da chantagem peemedebista.”.

Vão além: “Se queremos melhorar a vida do povo, se queremos ampliar a democracia, se queremos afirmar a soberania nacional, se queremos integrar a América Latina, (…) é preciso realizar reformas estruturais no Brasil, que permitam à classe trabalhadora controlar as principais alavancas da economia e da política nacional. Para isto, precisamos (…) dividir e neutralizar a burguesia, isolando e derrotando o grande capital transnacional financeiro”.

“A oposição de direita controla parte importante do Judiciário, (?) do Parlamento e do Executivo, em seus diferentes níveis. Agora está trabalhando intensamente para também controlar as ruas, utilizando para isto sua militância mais conservadora, convocada pelos meios de comunicação, mobilizada com recursos empresariais e orientada pelas técnicas golpistas das chamadas “revoluções coloridas”. Caso a direita ganhe a batalha de ocupação das ruas, não haverá espaço nem tempo para uma contraofensiva por parte da esquerda”.

“É possível derrotar momentaneamente a direita, até mesmo sem a ajuda do governo. Mas é impossível impor uma derrota estratégica à direita, se a ação do governo dividir a esquerda e alimentar a direita. Por isto, o 5º Congresso do PT deve dizer ao governo: que os ricos paguem a conta do ajuste, que as forças democrático-populares ocupem o lugar que lhes cabe no ministério, que a presidenta assuma protagonismo na luta contra a direita, contra o “PIG” e contra a especulação financeira”.

“A mobilização da direita visa criminalizar não só o PT e o conjunto dos partidos de esquerda, mas também a classe trabalhadora nas suas mais diversas expressões, organizações e movimentos: os sem-terras, os sem-tetos, os sindicatos combativos, os grupos e entidades populares etc. Não pode ser outra a leitura do ódio presente nos atos do dia 15 de março”.

 

(…) “ o PT defende tolerância zero com a facção golpista da direita”.

 

 

“Faz-se necessário implementar uma política de comunicação do campo democrático e popular, iniciando pela construção de uma agência de notícias, articulada a mídias digitais, que sirva de retaguarda e de instrumento(…) articulada à produção de um jornal diário de massas, (…)  orientada por valores democrático-populares e socialistas, combatendo a crescente ofensiva conservadora (…)”.

 

” (…)  Que recoloque o socialismo como objetivo estratégico. Que constate que o grande capital é nosso inimigo estratégico. Que não acredite nos partidos de centro-direita como aliados. Que seja baseada na articulação entre luta social, luta institucional, luta cultural e organização partidária. (…)”.

 

“Convencer a nós mesmos, ao PT, de que precisamos sair da situação atual, em que buscamos melhorar as condições de vida do povo nos marcos do capitalismo, para uma nova situação, em que melhoraremos as condições de vida do povo através de reformas estruturais democrático-populares e de medidas de tipo socialista. Só retomaremos a condição de partido hegemônico no governo, se nos dispusermos a conquistar/construir as condições para sermos partido hegemônico no poder de Estado”.

Enfim, quem quiser ler as 165 páginas de ameaças, pode acessá-las no endereço eletrônico http://www.pt.org.br/wp-content/uploads/2015/04/TESES5CONGRESSOPTFINAL.pdf

CADERNO TESES PT

Não é uma leitura agradável, mas é essencial conhecer a íntegra do absurdo.

http://www.eniomeneghetti.com

Estupidez

28 de janeiro de 2015

Estupidez                                                                                                                                                                                       Correio de Cachoeirinha – 28.01.2015

Muita gente critica as chamadas redes sociais.  Mas bem usadas elas são uma excelente ferramenta de informação.

 

Dias atrás vi uma publicação no Facebook que dizia assim:

 

“Estupidez: conhecer a verdade, ouvir a verdade, ver a verdade e ainda acreditar na mentira”.

 

Não é perfeito? Pois basta ler as manchetes dos veículos de comunicação dos últimos sete dias para constatar o quanto há de verdade na afirmação.  

 

“Após ganhar favor milionário do governo, empresário doa R$ 17 milhões para campanha de Dilma – Walter Faria, dono da cervejaria Itaipava, conseguiu renegociar em 24 horas empréstimo camarada com o Banco do Nordeste. Cinco dias depois, depositou R$ 5 milhões na conta do comitê da petista” (Época)

Outra (essa é fantástica):

 

“Ex-ministro Gilberto Carvalho saiu em defesa do ex-ministro José Dirceu; ele afirma que as (novas) acusações contra Dirceu na Lava Jato seriam uma tentativa da oposição de criminalizar o partido e impedir a volta de Lula em 2018: “Eles querem nos levar para as barras dos tribunais. Não vamos subestimar a capacidade deles para nos criminalizar, nos identificar com o roubo, para nos chamar de ladrão, para tentar nos isolar e inviabilizar em 2018 a candidatura do Lula (…)”- 27 DE JANEIRO DE 2015 ÀS 05:13

Ou:

 

 “A Fundação Perseu Abramo do PT, divulgou um boletim  no qual coloca em dúvida os efeitos do “ajuste recessivo” de Dilma A Fundação Perseu Abramo recebe pelo menos 20% dos recursos do Fundo Partidário destinados ao PT.” (O Globo)

 

Chega? Que tal essa? “Presidenta é acusada indiretamente por três executivos presos no esquema de corrupção – Será que a paciência dos brasileiros não tem limite?” – por Juan Arias (El Pais)

 Pois é. Será que não tem? 

 

“Documentos conseguidos pelo Jornal Nacional mostram que a Justiça decretou a quebra dos sigilos fiscal e bancário de José Dirceu  A empresa dele, JD Consultoria, recebeu quase R$ 4 milhões de empresas envolvidas no esquema.” (Globo)

 

Mais:

 

“Apontado pelos investigadores da Operação Lava Jato como coordenador do “clube” de empreiteiras que fraudavam licitações na Petrobras, o empresário Ricardo Pessoa, da UTC-Constran, negocia um acordo de delação premiada com os procuradores que atuam no caso.”  (Folha de S.Paulo)

 

É mole? Então vejam essa:

 

“Amigo íntimo do ex presidente Lula é investigado no petrolão.  Ele tinha acesso livre ao Palácio do Planalto na gestão Lula e até hoje resolve problemas de sua família”.(Revista Veja)

 

Estamos mesmo lá fora. Vejam:

“Reportagem da TV Portuguesa expõeLula envolvido em esquema internacional de corrupção e propinas – Reportagem da ‘TVI 24’diz que Lula estaria sendo investigado por autoridades portuguesas em razão de um suposto suborno de 2 milhões de euros que teriam sido pagos por Miguel Horta e Costa, então presidente da Portugal Telecom para financiar o PT” – (Folha Política)   

 

 Muita gente desgostosa poderia até dizer que isso é invenção contra o atual governo. Mas está em todos os lugares, no mundo inteiro. Inclusive, acho uma graça as reportagens de TV – especialmente do Jornal Nacional –  mostrando o consumo de energia de cada eletrodoméstico, em meio a(s)  crise(s) que atravessamos.  Nem ao menos relembram que Lula incentivou o povo a gastar o que não tinha, via endividamento, no desespero para conter o tsunami econômico de 2008, que insistia em chamar de “marolinha”. Foi uma irresponsabilidade econômica  e a conta chegou. O que ele faz? Tenta fazer descolar de Dilma, claro.

 

Mas é pior ainda. O pouco que já se sabe dos elementos e provas fornecidas por Paulo Roberto Costa e Alberto Youssef , põe por terra qualquer tentativa de amenizar o momento inédito que atravessamos.

Se vai dar cadeia, isso dependerá do judiciário. Existe pressão por transformar em multas o que deveriam ser penas exemplares. O advogado de Alberto Youssef, garante queessa situação foi coordenada e tramada a partir da própria Petrobras. Há claros e fortes indícios de participação dos políticos, que não vou nomear, pois isso deve ficar a cargo da investigação. Meu cliente não é líder de nada. Eles (os políticos) é que vão atrás e criam o sistema para o esquema de manutenção no poder. O esquema na maior estatal do país só pode funcionar com a anuência dos políticos. Isso era fato notório dentro da empresa”.

 

Youssef demonstrou ao juiz Sérgio Moro que o esquema de corrupção na Petrobras vinha de cima. Explicou como o sistema remunera políticos com a grana desviada do setor público. Nenhuma novidade. É a mesma mecânica do Mensalão, só que muito maior. A diferença foi colocar o dinheiro de corrupção como doação legal a partidos e campanhas. O sistema funcionou para financiar grupos e partidos políticos e quando migrou para a doação legal a campanhas e partidos atingiu o núcleo da democracia, pois, quando alguns partidos passam a deter o domínio de uma grande verba, há um desequilíbrio no sistema eleitoral. Lembram das palavras de Joaquim Barbosa na sentença do Mensalão?

 

Estamos em meio a um golpe econômico/financeiro nas instituições.  Não enxergá-lo é estupidez.   

http://www.eniomeneghetti.com

 

Impeachment não é golpe

5 de novembro de 2014

Impeachment não é golpe

Dezembro de 1992. O presidente da República, Fernando Collor de Mello, sofreu impeachment e foi removido da presidência pelo Congresso. Ficou inelegível por oito anos.

 

Motivo: indícios de corrupção.

 

O processo teve início a partir de uma entrevista de seu irmão Pedro Collor de Mello a revista Veja, onde Pedro acusava o próprio irmão e Paulo Cesar Farias de agirem em conluio para obter recursos financeiros de empresas privadas. O auge do escândalo foi a revelação através do motorista, que uma camioneta Fiat Elba registrada em nome de Color, havia sido comprada com um cheque de PC Farias.

 

Cabe lembrar que ninguém reclamou da revista.

 

Para que se desencadeie um processo de impeachment, é necessária apenas a suspeita da prática de um crime ou de uma conduta inadequada para o cargo.

 

No último sábado, seis dias após as eleições, aconteceram em várias capitais brasileiras atos públicos, passeatas e manifestações pedindo o impeachment de Dilma.

 

Tais atos foram ridicularizados por setores da imprensa. Taxados por alguns de “golpismo” ou “bobagem”. Os manifestantes, taxados de “fascistas”, pelos adeptos da presidente reeleita.

 

Com amplo domínio político, partidário e financeiro no Congresso, é difícil êxito em um processo de impeachment contra a atual presidente. Mas, de acordo com a Legislação vigente, seria admissível um processo de impeachment. Existe um precedente e motivo. Talvez até três, pelo menos.

 

Para quem tem memória curta, cabe lembrar que o atual escândalo da Petrobrás teve seu pontapé inicial quando a própria Presidência da República, antecipando-se ao furacão que viria a seguir, soltou uma nota oficial, confirmando que Dilma, quando presidia o conselhão da empresa, aprovou a compra superfaturada da refinaria de Pasadena , com a questionável ressalva de ter sido mal assessorada sobre o assunto. Lula, mais acostumado ao safar-se no olho dos furacões,  chegou a classificar a nota como “um tiro no pé”.

 

Posteriormente vieram as delações premiadas do ex diretor Paulo Roberto Costa e do doleiro Alberto Youssef e muitos detalhes escabrosos das maracutaias acontecidas na maior estatal brasileira. Muito mais malcheirosas até, do que a refinaria de Pasadena.

 

Alberto Youssef, em seu depoimento no processo de Delação Premiada afirmou que o “Planalto” teria conhecimento, nas pessoas de  “Lula e Dilma”, dos “malfeitos” na Petrobrás. A informação foi objeto de ampla divulgação na revista Veja. Ora, por analogia ao caso Collor, motivação mais do que justa e legal para abertura de um processo de impeachment.

 

Um segundo motivo, este muito mais forte, óbvio e palpável para abertura de um processo de impeachment é a inobservância clara, flagrante e inequívoca, por parte da presidente Dilma Rousseff,  do disposto no artigo 49, Ítem 1 da Constituição Brasileira.

 

 

O Art. 49 diz claramente: “É da competência exclusiva do Congresso Nacional:

I – resolver definitivamente sobre tratados, acordos ou atos internacionais que acarretem encargos ou compromissos gravosos ao patrimônio nacional;”

 

Pronto. Pergunte a qualquer jurista ou advogado e ele confirmará: presidente da República, de acordo com o Artigo 49 da CF,  NÃO PODE financiar, emprestar ou doar dinheiro dos brasileiros a países estrangeiros sem a anuência do Congresso Nacional. A desculpa esfarrapada de que o financiamento do Porto de Mariel em Cuba – fato: com dinheiro dos brasileiros – deu-se através de financiamento à construtora que realizou a obra, é tão estapafúrdia, quanto a outra absurda novidade no obscuro negócio: foi decretado “sigilo” dos contratos do empréstimo ilegal. Nada se sabe sobre o negócio. Taxas de juros, valores, carência, garantias, prazo, NADA!

 

Outro artigo da Constituição Federal que está sendo violado ainda:  é o de número 37, que define os princípios da Administração Pública, aos quais TODOS os agentes públicos estão subordinados, inclusive a Presidente e o banco estatal BNDES: são os princípios  “Legalidade, Impessoalidade, Moralidade, Publicidade e Eficiência”. Pois esse sigilo não é LEGAL e obviamente desrespeitou o princípio da PUBLICIDADE.  A tão decantada transparência que deve, por força de lei, nortear os negócios públicos.

 

As ilegalidades flagrantes cometidas no caso dos empréstimos a países estrangeiros são inclusive motivo mais do que suficiente também para uma  ADIN – Ação Direta de Inconstitucionalidade – no STF – Supremo Tribunal Federal – a instância máxima da Justiça brasileira, a quem cabe julgar o Presidente da República.

 

Uma ADIN é cabível frente a inobservância por parte do Presidente da República da Constituição vigente.

 

No caso específico dos empréstimos aos países estrangeiros, somente as seguintes pessoas ou entidades podem propor a ADIN:  Mesa do Senado Federal;  Mesa da Câmara dos Deputados; Procurador-Geral da República; Conselho Federal da OAB; Partido político com representação no Congresso Nacional; Confederação sindical ou entidade de classe no âmbito nacional.

 

Nós, cidadãos comuns, infelizmente, não podemos.

 

Desde fevereiro de 2014 tramita no STF um mandado de segurança movido pelo senador Álvaro Dias (PSDB-PR) para receber informações sobre os empréstimos feitos pelo BNDES aos governos cubano e angolano. Antes de recorrer ao STF, já haviam sido pedidos os esclarecimentos por vias administrativas, os quais foram negados sob a alegação de sigilo imposto pelos governos daqueles países. Desculpa absurda e inaceitável essa de submeter a Constituição Brasileira à imposição de outros países. Um disparate. A matéria no STF está para ser relatada pelo Ministro Luiz Fux.

Aguarda-se a manifestação, quem sabe, para breve.

 

A conclusão óbvia é que NÃO são infundados os motivos que poderiam SIM levar a atual presidente a sofrer um processo de impeachment. Se este seria vitorioso ou não, é outra questão. Motivação legal existe. Claramente.

 

Esse assunto vai longe.

http://www.eniomeneghetti.com