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Maquiando opiniões

6 de agosto de 2014

Maquiando opiniões
artigo publicado no Correio de Cachoeirinha – 06.08.2014

A revista Época desta semana traz uma entrevista com o ex-economista chefe do Santander, Alexandre Schwartzman, que já foi também diretor da área externa do Banco Central, no governo Lula.

Sobre sua demissão do Santander, ocorrida em 2011, ele respondeu à pergunta sobre se havia semelhança entre seu caso e o atual episódio da degola da analista que apontou problemas com a política econômica do governo. A resposta:

“(…) minha demissão foi motivada pela discussão que tive em público com o José Sérgio Gabrielli, presidente da Petrobrás na época. Foi devido a forma como o governo federal contabilizou o aumento da capital da empresa. Todo o mundo sabia que aquilo era contabilidade criativa, uma manobra para melhorar as contas públicas. Gabrielli falou que aquele dinheiro estava no Tesouro, e fiz um comentário irônico, que arrancou gargalhadas da plateia. Disse que só se o dinheiro estivesse dentro da cabeça dos contadores do Tesouro. (…) Até consigo entender o que aconteceu. Eu era um diretor do banco (Santander), um ex-diretor do Banco Central, um executivo da alta hierarquia, e entrara em conflito com o presidente de um cliente importante. Agora, pegar alguém lá embaixo (a analista demitida) que defendia o interesse dos clientes, e demitir, é outra coisa. Passa uma covardia inadmissível.”

Para o ex diretor do Banco Central, é dever dos bancos fazerem isso: “O que a analista fez foi só repassar aos clientes uma informação já conhecida. Cabe aos bancos zelar pelo patrimônio dos clientes. (…) O governo reagiu de forma muito dura. Você até pode reclamar, dizer que não gostou. Mas a reação foi totalmente desproporcional.”

Economista e atual consultor financeiro, Schwartztsman é claro ao medir as consequências: “Como grande parte da inteligência econômica está nos bancos, isso empobrecerá o debate. Agora, quando o analista avaliar uma questão de grande impacto econômico, mas politicamente delicada, ele se omitirá. O governo tem que aprender a ouvir o contraditório” – diz. “Afinal, se o FMI faz uma pesquisa que traz dados desfavoráveis, o governo diz que está tudo errado. Quando o Índice de Desenvolvimento Humano não é o que o governo quer, o índice não presta. Com as pesquisas do Banco Mundial é a mesma coisa. O governo tem que parar de contestar tudo”.

Acertou na mosca. Ou será que os analistas econômicos, ou organismos como o FMI, o Banco Mundial, bancos como Deutsche Bank, publicações respeitadas como a revista Business Week, estarão todos errados e só o governo está certo?

Enquanto isso, o mesmo José Sérgio Gabrielli, cujo bate-boca em público já havia protagonizado a queda do economista-chefe do Santander em 2011, é um dos personagens principais da reportagem central de Veja desta semana.

Veja trouxe a público trechos de uma gravação secreta que mostra como teriam sido combinadas as perguntas e respostas entre os investigados na CPI do Senado que investiga as fraudes na Petrobrás. Só para lembrar, Gabrielli foi um dos ex-diretores que tiveram os bens bloqueados a pedido do TCU – Tribunal de Contas da União – por conta do prejuízo milionário causado a estatal com a compra da refinaria de Pasadena -nos Estados Unidos.

A semana foi movimentada. E promete continuar sendo. A discussão se prolongará sobre a tentativa de anulação dos depoimentos forjados. São duas as CPIs da Petrobrás: a CPI exclusiva do Senado e a mista, que é composta por deputados e sanadores. Na CPI do Senado, o controle do governo é total. Na CPI mista, a oposição conseguiu emplacar um maior número de participantes. Mesmo assim, é inegável o relativo conforto que a ampla base aliada amealhada pelo governo lhe proporciona.

A certeza que fica é que há muito mais coisas para vir do lugar de onde vieram estas.

Exame
Felizmente o editor de Exame não tem medo de cara feia.

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O mico da semana

30 de julho de 2014

O mico da semana

Foi amplamente noticiado o fato de que o Banco Santander enviou a seus melhores correntistas uma avaliação da relação entre o desempenho da atual presidente em pesquisas eleitorais com os números dos indicadores econômicos.

Foi o que bastou para o presidente do partido do governo, Rui Falcão, apressar-se em classificar a atitude do banco – ao dizer o que todos já sabiam – como ‘terrorismo eleitoral’.

O que chamou a atenção foi o fato do próprio governo ter impulsionado a notícia, reclamando publicamente. Ora, algo que passaria relativamente despercebido teve sua dimensão aumentada, chegando a uma muito maior quantidade de ouvidos e mentes, do que se o atual detentor do cargo que um dia foi de José Genoíno tivesse ficado quieto.

A razão para o berro governamental é elementar. Ora, a análise enviada está correta.

Embora a maioria das pessoas fiquem reticentes em aceitar os fatos, subestimando a crise que se aproxima, os sinais dela são evidentes. E não falo apenas da obviedade de que o total das despesas do governo supera as receitas. Há uma política deliberada de aumento dos gastos públicos.

Desde a crise de 2008 o Brasil abandonou o bom senso econômico para passar a implementar intervenção na Economia, pautando-se pelo assistencialismo e estímulo irresponsável ao consumo. Isso inevitavelmente nos trouxe ao ponto atual, quando estamos à beira da falência das contas públicas e da recessão ante o fato da impossibilidade das famílias continuarem aumentando o consumo na velocidade necessária. Os investidores não confiam mais no Brasil e, sem confiança, simplesmente não investem. Afinal, o Brasil terá em 2014 o pior resultado de crescimento do PIB desde o governo Collor.

O Banco Santander estimou um crescimento de apenas 0,9% neste ano. E este não é o único problema. O próprio Banco Central, com base em seus Relatórios Trimestrais de Inflação, projeta em 6,40% o índice para este ano.

Porém, a rigor, já estamos acima disso. Não fosse o controle de preços maquiando a inflação, já estaríamos muito além. Ao represar os preços de energia e combustíveis – fato admitido pelo governo – especialistas estimam que a inflação já estaria ao redor dos 8,5% ao ano. O represamento de preços por si só tem consequências desastrosas. Sugerem maior inflação futura, desalinhamento de preços e destruição de determinados setores. São esses ingredientes – devidamente interpretados pelos melhores especialistas no mundo inteiro – que apontam para um quadro catastrófico para um futuro próximo, com uma inflação que poderá beirar os 15% ao ano.

As consequências de um número desta magnitude são plenamente conhecidas por quem viveu um passado recente, anterior ao Plano Real: aumento de desemprego, interrupção súbita do crédito e consequente dificuldade das pessoas de honrar seus compromissos financeiros.

O desajuste de nossas contas públicas fatalmente nos levará ao aumento das taxas de juros. Enquanto o resto do mundo estiver mantendo as taxas de juros baixas, menos mal. Mas com a expectativa de que o Federal Reserve – o Banco Central americano – eleve suas taxas de juro a partir de 2015, vai faltar dólar no Brasil.

Nosso mercado de trabalho já enfraquece a nível assustador. A indústria está estagnada. A recessão mostra a cara. Os índices de desemprego são medidos de forma errada, pois consideram apenas quem está procurando trabalho e não encontra, desconsiderando a parcela daqueles que já desistiram de procurar. O índice de criação de novos postos de trabalho há muito tempo vem decaindo continuamente. Portanto, é uma falácia creditar “pleno emprego” à competência da gestão pública.

Por isso tudo, em rápida análise, se compreende o porquê do governo apressar-se em “fechar a porteira” para a críticas vindas dos analistas do Banco Santander. A aceitação tácita das mesmas poderia trazer uma avalanche de outras do mesmo teor e sentido.

E por fim, não surpreende que um governo cujo partido chegou a publicar em seu site uma “lista negra” de jornalistas a serem perseguidos pelo Estado, tenha festejado a demissão dos analistas econômicos de um banco, pela ‘grave’ falta de terem feito previsões acertadas.

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